As principais dores da transformação digital

Por: George Arraes

Pastas cheias de papel
Posted on Dec 26, 2018

 

Toda transformação oferece algum tipo de desconforto e nas empresas isso não é diferente. Mas para não sofrer as consequências de não acompanhar a atual realidade do mercado, entenda a necessidade de encarar o novo,  distanciar-se da sua zona de conforto e aproximar-se do mindset digital.

 

Nos últimos anos, vivemos inúmeras mudanças que têm impactado o dia a dia das organizações. E uma das principais é maneira como o digital vem alterando os modelos de atuação dos mais diversos tipos de indústria, desde a manufatura, o varejo até o setor financeiro. Atuando próximo aos clientes, acompanho os seus processos evolutivos rumo a esse novo contexto do mercado. E o que mais chama a atenção é que todos, em algum momento, sofrem algum tipo de dificuldade para encarar os desafios de uma transformação.

Durante a minha rotina, percebo problemáticas que são comuns a quase todas as corporações, como uma forte resistência que se cria em torno da mudança, por exemplo. Mas como qualquer transformação oferece algum tipo de desconforto, é normal ver isso acontecer também nas empresas, quando precisam fazer alterações bruscas nas suas formas de atuar.

Aqui na CI&T, adotamos uma maneira de promover a adoção de um novo mindset digital que está muito mais ligada a uma transformação cultural do que especificamente tecnológica, ou seja, muito mais voltada à pessoas do que à implementação de ferramentas. O que fazemos é, basicamente, provocar clientes a abraçar o novo e desenvolver modelos de negócio diferentes daqueles que estavam acostumados por meio de estratégias baseadas no Lean. Entretanto, é preciso lembrar que essas mudanças ocorrem em ambientes ainda baseados em estruturas de comando e controle, centrados na competição e, por isso, não são tão simples. É preciso que se desconstrua a ideia anterior para conseguir  entender a importância da mudança e efetivamente fazê-la.

É natural surgir, nesse contexto, momentos de insegurança, pois, como citei anteriormente, viver o desconhecido normalmente é muito desconfortável. O que não pode acontecer é essa sensação impedir uma organização de evoluir e se tornar bem-sucedida no mercado atual. Conheça algumas dores que travam o caminho das empresas rumo à transformação digital e saiba como enfrentá-las:

 

1. Percepção da urgência e necessidade da mudança

Um dos pontos semelhantes entre a maioria das organizações que desejam implementar as transformações que o digital propõe é a falta de percepção da urgência com que esse processo deve ocorrer. Como falei anteriormente, muitas até entendem a importância de viver as mudanças, mas colocá-las em prática é uma história completamente diferente.

Algumas empresas começam o processo de transformação e acabam não concluindo por estar acostumadas a agir exclusivamente de forma reativa. Ou seja, esperam que o problema chegue para atacá-lo. Isso ocorre por uma dificuldade, principalmente, da camada executiva no momento de reconhecer que as dores da concorrência digital existem e que o cenário hoje pode até seguir confortável, mas em um futuro próximo certamente não será.

Um exemplo clássico que mostra a necessidade da mudança é o da Blockbuster. A empresa, que era totalmente dominante no mercado de locação de vídeo, não quis encarar o desconforto de transformar seu modelo de negócio para o streaming. Teve a oportunidade de comprar 49% da Netflix por US$ 50 milhões em 2001 e rejeitou a oferta por não achar que o novo formato fosse uma ameaça muito grande. O resultado é que, hoje, ela desapareceu completamente. Já a Netflix vale US$ 152,3 bilhões, tendo recentemente ultrapassado a Disney como a companhia de mídia com maior valor de mercado do mundo.

Assim como em tantos outros casos, sobreviveu a marca que identificou a realidade do cenário mais rápido, aprendeu rapidamente e se adaptou às novas necessidades dos clientes e não a que tinha mais musculatura. Por isso, é essencial perceber que tudo aquilo que você fez para alcançar uma posição dominante no passado não é garantia de que continuará nela. Então não deixe que a dificuldade de enxergar a urgência de viver uma mudança trave a sua empresa e a impeça de continuar sendo relevante no mercado digital.

 

2. Transformação do mindset da liderança

Se a mudança é constante, então, é preciso se atentar às pessoas que vão conduzi-la, ou seja, ao papel que as próprias lideranças devem assumir dentro de uma companhia no contexto de transformação.

Acostumados a liderar em ambientes de muita competição, gestores foram ensinados que são os "detentores do conhecimento" e então comandam as ações e tomam as decisões dentro da empresa sem muito diálogo ou troca. Ou seja, acreditam que seu papel é dar as ordens corretas. Mas, na realidade atual, esse posicionamento já não funciona mais. Não existe uma garantia de que o seu conhecimento ou ideia seja maior ou melhor que o do outro - nem mesmos quando você tem mais experiência -, e isso coloca as estruturas de comando e controle em uma posição muito mais vulnerável a questionamentos e falhas.

Os gestores devem deixar a posição de “donos da verdade” para se tornarem líderes inspiradores e guiar suas equipes rumo à descoberta das melhores soluções de forma conjunta. A nova liderança, então, deve estar aberta para ouvir e ensinar, mas também para aprender. Deve entender que a inteligência coletiva é mais poderosa que a individual, que todos juntos somando conhecimentos potencializam o resultado.

E cabe às pessoas em posição de liderança, principalmente CEOs, nortear a construção dessa nova cultura de colaboração e por isso devem ser as primeiras a entender a necessidade da mudança de mindset. É a partir do exemplo de líderes que esse pensamento e essa nova forma de atuar se espalha por toda a empresa, pois as pessoas se sentem confortáveis e motivadas a fazer o mesmo.

Porém, a verdade é que muitos ainda demonstram insegurança ou despreparo para colocar isso em prática. E essa dificuldade está ligada ao fato de não conseguirem se desprender da mentalidade antiga de gestão ou encarar novas formas de pensar e agir. E, na maior parte das vezes, o efeito é a estagnação da empresa, pois essas atitudes travam as mudanças necessárias para que a empresa alcance o verdadeiro modelo de operação digital.

Para reverter esse cenário, o exercício da transformação deve ser diário. As lideranças devem entender que instalar um ambiente afeito à colaboração e experimentação é um processo urgente e que, para isso, devem permitir que as ideias prevaleçam pelo valor delas, e não por quem as defendeu. Pela minha experiência, esse é um excelente primeiro passo. As pessoas dentro da empresa rapidamente percebem esse espaço para contribuir e começam, pouco a pouco, a confiar e caminhar lado a lado com a liderança, não para seguir uma ordem, mas por se sentirem inspiradas. E, assim, uma mentalidade de mudança e de muita colaboração é disseminado por toda a empresa.

 

3. Obsessão pelos consumidores

Outra grande dificuldade das empresas é conhecer, perseguir e atender as reais vontades dos consumidores. Muitas organizações acreditam que sabem quem são os usuários das suas plataformas ou quais são as principais características dos seus compradores. No entanto, na maior parte das vezes, eles ainda estão presos a ideias passadas. Em questão de dias ou meses o comportamento dos clientes pode mudar, as necessidades deles podem seguir em outra direção. Logo, se todas as suas ações são baseadas em percepções e pesquisas de 2 ou 3 anos atrás, pode ter certeza que seus produtos e serviços terão cada vez menos sucesso.

O segredo é ser guiado pela "obsessão pelo consumidor", ou seja, desenvolver a habilidade de produzir e entregar apenas o que é valor para o cliente. Nesse caso, em vez de desenvolver uma solução durante anos e entregar depois de estar totalmente finalizada - correndo o risco de ter ficado obsoleta -, basta fazer pequenos experimentos em cima de hipóteses e avaliar seu desempenho no mercado. Essas hipóteses devem ser construídas observando os movimentos dos consumidores e, depois do produto lançado, sua aceitação deve ser avaliada com o retorno deles. Assim, é possível reduzir desperdícios e aumentar a satisfação na ponta da cadeia.

 

4. Aprendizado em relação à cultura do erro e da experimentação

Entender que o erro é a principal forma de gerar aprendizado é um desafio enorme, mas muito necessário quando se sabe que o único caminho para o sucesso é viver uma verdadeira transformação. Diversas organizações ainda têm suas estruturas enraizadas em um modelo voltado ao domínio de mercado, aos planos de longo prazo e a aversão a riscos. Por uma questão cultural, tentam esconder e mascarar o erro e se sentem desconfortáveis em discutir sobre falhas. No entanto, não é com essa atuação que vão conseguir ter sucesso no novo mercado, pois o digital é sobre velocidade de adaptação, resiliência, aprendizado e evolução. E não é possível aprender e nem evoluir sem errar, sem ter problemas e aproveitá-los como oportunidade de alavancar o novo.

Atualmente, é preciso nutrir uma cultura na qual os dedos apontados para o erro não prevaleçam. E na qual a verdadeira prioridade seja formular hipóteses rapidamente, construir experimentos com agilidade para logo testá-los e aprender com eles, como já dito. Pois a ideia é, justamente, fazer experimentos rápidos e pequenos para poder errar com segurança, ter perdas pequenas e aprender para ser melhor a cada resultado. Não há mágica, é assim que se constróem os grandes sucessos.

Portanto, a minha dica aqui é: esqueça os tempos passados em que não era possível ingressar em um novo mercado porque a barreira de entrada era muito forte. Agora, quem ganha o jogo é aquele que vê os problemas como ouro, aprende mais rápido (com o seu próprio erro e com o do outro) e tem saltos de performance mais impressionantes do que quando se cresce organicamente em um modelo de aversão ao risco.

 

5. Quebra de silos

Assim como existe uma dificuldade em entender que os erros, os problemas são ouro, a quebra de silos também é vista como um grande desafio. Isso porque o efeito dos dois é bastante parecido.

Fazer com que todos da empresa se envolvam na solução de uma problemática e que diversas opiniões e insights variados façam parte desse processo é uma característica muito marcante deste novo cenário. E quando você começa a agir dessa forma, naturalmente passa a entender a importância de quebrar silos, ou seja, de acabar com as fronteiras rígidas entre departamentos da organização.

É fundamental que caiam as barreiras existentes entre setores e áreas, mas também aquelas que impediam a troca de conhecimentos e a visualização dos problemas abertamente. Assim, as empresas desenvolvem um novo mindset de atuação, produção e criação de soluções, em que as pessoas recebem algo muito melhor do que o conforto dos silos, pois o ambiente passa a ser de aprendizado constante e todos têm a chance de serem coautores de grandes resultados.

Vencidas essas cinco barreiras, a empresa estará pronta para implementar novas práticas e ferramentas e conquistar uma operação ágil, veloz, efetiva, inovadora e de muito sucesso no mercado digital.